No Privilégio




Em tempos de pandemia, uma reflexão sobre temas "atuais"


No privilégio não tem pandemia, não tem preocupação, não tem empatia.

No privilégio não tem medo, não tem consciência, não tem reflexão.

No privilégio tem praia, diversão, bares, festas da firma, viagem internacional, plano de saúde.

No privilégio também tem vírus, UTI lotada, amigos doentes, um país devastado. 

Mas é só fugir, correr para as colinas geladas do privilégio e guardar apenas a recordação de "um país onde vivi um dia".

O privilégio está na cor, no dinheiro, na falta de consciência.

O privilégio está no ego, na busca de uma alma perdida por conquistar todos os seus desejos efêmeros que o capitalismo ajudou a perpetuar.

"O desejo é uma vontade que enlouqueceu", já dizia Osho.

Vivemos numa sociedade que nos condicionou desde cedo a querer mais, a saber mais, a ser mais. Precisamos ganhar mais que os outros, saber mais que todos, ser melhores que os outros.

Privilégio foi algo que a humanidade criou. 

Na cegueira de tentar ser superior ao outro. Escravizamos, culpamos, jogamos ao relento aquele que não é "igual a nós".

Em pleno século XXI ainda precisamos libertar pessoas de condições análogas à escravidão, explicar que racismo reverso não existe e viver esperando dias melhores.

Veremos o resultado de uma sociedade enfim consciente e fraterna?

Sinceramente? 
Acredito que não nessa vida.

Mas e o agora então? 
Fazemos o que é possível. 



Aquele que aceita diálogo, dialogamos. Aquele que desaprendeu a conversar e olha apenas para o próprio umbigo, seguimos na luta para mostrar a realidade.

Uma coisa que é bastante perigosa e exige um certo cuidado ao se falar é "espiritualidade".

Muitos de nós ficamos cegos pela cultura do "gratidão ao meu algoz", "viva a energia positiva", "sai daqui com essas notícias ruins e essa bad vibe", "não vejo cor, só pessoas"... 

Tapar o sol com a peneira, diriam os antigos.

Qual a diferença de quem se esconde atrás do privilégio e de quem se esconde atrás do falso Namastê? 

Para mim, nenhuma.

Se finge não ver a realidade, não importa por qual motivação seja, está fora do mundo real. Está fechando os olhos para as próprias feridas e as mazelas da humanidade. Está se esquecendo que todos fazemos parte desse sistema. 

Todos.

É preferível olhar para dentro e ao mesmo tempo para fora, do que julgar o outro como inferior por não seguir os mesmos passos que os seus.

Certa vez vi um professor de Yoga julgar, gritar e apontar dedos para dizer que todos os outros estão errados por comerem carne e ele não, pois é vegetariano (como "manda" a tradição).

Vou julgá-lo? Não. Ele está aqui como eu, aprendendo. 
Vou discutir? Não, ele nem vai me ouvir. 
O que faço então? Nesse caso específico, nada. Apenas existo. Deixo que o fluxo da vida faça o resto.

"Ah então está errado militar pelo vegetarianismo ou pelo fim do privilégio branco?" Claro que não. Está mais do que certo! Ficar sem fazer nada ou em cima do muro, é compactuar com o erro.

Mas é importante saber em quais situações e em quais momentos se retirar e observar. Mude de estratégia, tire um tempo para se cuidar e volte a agir.

Há um tempo para tudo. 

E esse é o tempo do despertar.

(...)

Enquanto uns seguem passeando, festejando, aglomerando em restaurantes onde o único que usa máscara é o garçom (que, pasme você: ele também tem família, provavelmente mora longe e vai ter que contar com o SUS caso o privilegiado o contamine "sem querer" com algo), o mundo segue girando, a doença segue matando e os profissionais de saúde seguem exaustos.

Espero, sinceramente, que alguma palavra, mesmo que não sejam as minhas, toque o seu coração.

Espero, de coração, que você não precise sentir na pele, no corpo físico ou na dor da perda de alguém, para começar a RESPEITAR a atual situação.

Se cuidem. 

Lokah Samastah Sukhino Bhavantu





Ana Carolina Reis
Niterói, 27/12/2020


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