A inversão do êxodo: a fuga para o campo

Quando crianças, muitos de nós aprendemos na escola sobre o “êxodo rural”. Havia aquela clássica foto no nosso livro, que traduzia a vida no campo com a imagem de uma família pobre, retirante, fugindo da falta de emprego e da seca, para tentar uma vida nova na cidade. O sonho de poder ter tudo, comprar o que quiser, ter acesso às boas escolas e, principalmente, qualidade de vida.
Hoje em dia, parece que as coisas mudaram um pouco. As pessoas estão “fugindo” da cidade para o campo, para perto da natureza, de volta as suas raízes. Com a tecnologia, muitas cidades do interior e do sertão, tem acesso à água, luz, Internet.
Os motivos? Fugir do estresse, da vida agitada ao extremo, da poluição, dos empregos que consomem todas as horas do seu dia, da falta de contato com a natureza, da violência, do excesso de informações, etc.
As pessoas estão voltando a morar no campo. Viver na cidade já não é sinônimo de qualidade de vida, de emprego garantido, de educação e saúde. E, para alguns, talvez nunca tenha sido.
“Êxodo” requer a “emigração de um povo ou saída de pessoas em massa”. E não é quase isso o que se tem visto?
Mas já parou para se perguntar se há mais que isso? Será que existem motivos maiores para fazer o ser humano fugir daquilo que lutou tanto para construir?
Acontece que o mundo está realmente mudando. As pessoas estão chegando ao seu limite. Não conseguem mais viver de um trabalho que não lhes gera realização e prazer. Começam a se perguntar sobre qual seria o seu propósito maior nessa vida. Afinal, viemos para esse mundo apenas para estudar, ter um emprego e nos aposentar? Qual legado deixamos?
Quantas pessoas você conhece que largaram ou estão pensando em largar tudo, e viver com pouco, em busca da felicidade? Quantos estão buscando uma nova maneira de empreender? Empreendimentos sustentáveis e colaborativos brotam por todos os lados.
E isso é ótimo! Essa mudança planetária está trazendo um “despertar coletivo”. Estamos acordando e vendo que não faz sentido um mundo feito apenas de consumo, poder e violência.
A fuga para o campo também transparece isso.
A crescente busca por uma alimentação mais saudável, orgânica e natural, deu margem para o surgimento de diversos pequenos produtores agrícolas, que estão de volta ao campo. Antes, nós aceitávamos o veneno (agrotóxicos) na nossa comida, sendo algo normal, assim como a poluição das grandes cidades. Hoje já enxergamos diferente.
O jovem não quer mais fugir da cidade pequena do interior. Muitos saem, buscam conhecimento, e voltam para aplicar isso na agricultura orgânica, no turismo sustentável, na melhoria de vida do morador da região rural.
Muitas pessoas, que passaram suas vidas inteiras nas grandes cidades, hoje recomeçam com uma vida simples, perto de muito verde, silêncio, rios e cachoeiras.
Nós fazemos parte da natureza, e já foram feitas diversas pesquisas, afirmando que o tempo que passamos em contato com ela, seja contemplando, praticando esportes ao ar livre, meditando ou de qualquer outra forma que traga o sentimento de recarregar as energias, realmente faz bem a nossa saúde, gerando bem-estar e bom humor.
Pelo conceito de “biofilia” (que significa “amor à vida”), nós fomos programados para amar tudo que é vivo, e por isso a natureza nos faz tão bem. Se pararmos para analisar, não faz tanto tempo assim que passamos a viver em cidades. E já estamos querendo voltar às raízes.
O turismo, através do ecoturismo, do turismo de contemplação e do turismo sustentável, tem servido para muitos, como uma opção para quem ainda não tem condições para se mudar para o campo. Passar um tempo numa serra, numa área de preservação, numa praia, no alto de uma montanha, ou apenas numa simples casinha de uma cidade pacata, já recarrega nossas forças e nos libera do estresse.
Retiros de meditação e espirituais surgem por várias cidades do mundo. É mais uma opção ligada ao autoconhecimento, e ao contato com o campo e a natureza.
O mundo está realmente mudando. E nós temos a sorte de estar aqui participando deste momento.
Olhe mais afundo em você, se pergunte qual o seu propósito maior? O que te deixa feliz? O que você pode fazer para tornar onde você vive, num lugar melhor?
Você pode começar a fazer isso em qualquer lugar que esteja. Mas se sentir a necessidade, um chamado para estar ou até mesmo para viver, se mudar para perto da natureza, numa cidade pequena, no campo, não exite em atender.
Hoje, o natural é bem-vindo! Não existe mais o estereotipo do “riponga”, “bicho grilo”, e etc. Existe a busca de algo maior, a busca para entender o porquê a natureza nos faz tanta falta, o porquê da necessidade de ir morar no campo, voltar as nossas raízes, encontrar o propósito de estarmos aqui.
Mas enquanto você não se muda para a sua casinha dos sonhos no campo, cultive bons hábitos! Faça um mini-horta na sua casa ou apartamento, pratique a meditação ficando pelo menos 1 minuto em silêncio, leia bons livros, visite um parque, tenha contato com animais, ouça o barulho do mar, seja grato, respire.
Não espere a aposentadoria ou a velhice para ser feliz e fazer o que sempre amou fazer. Faça agora!
Comece agora. Ser feliz, na cidade ou no campo, é uma escolha sua. Faça com sabedoria.
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Reflexão em 2020
Eu escrevi o texto acima, no ano de 2017, para o site Jardim do Mundo.
Hoje, durante a quarentena por conta da Pandemia do Coronavírus em 2020, me peguei relembrando e refletindo sobre como esse texto é atual e necessário. Revejo meus valores, e vejo que, como muitos de nós, eu me desconectei da terra, dos meus princípios de sustentabilidade, das minhas raízes numa vida próxima a natureza (como foi toda minha infância)… E tudo isso para quê? Para viver perto das comodidades da cidade, chegar “mais rápido ao trabalho”, poder comprar tudo que preciso perto de casa.
Atualmente, me vejo questionando se isso realmente vale a pena. Abrir mão de uma janela com vista para montanhas, de um chão de terra, de uma liberdade que um simples quintal pode proporcionar, simplesmente para ter mais “facilidades” de uma cidade.
A quarentena faz a gente refletir muito. Para quem tem uma visão mais espiritualista, como eu, é possível ver conexão em absolutamente tudo.
Estamos na “Era de Aquário”. Alguns dizem que ela começa agora. Outros, que ela se iniciou na década de 70, com o movimento Hippie. Há a necessidade de olharmos diferente para a nossa Terra. De viver conforme os recursos nos permitem. De sermos solidários, dividir o que é produzido, se conectar com a força e a energia que provém da natureza.


O ser humano está sendo convidado a repensar seu modo de vida, seu consumismo, sua forma de tratar o outro.
Para mim, tudo isso passa pelo tema citado no texto de 2017. Revejo meus princípios, honro meu passado e minha saudade da terra, do rural, da paz que a natureza traz. Viver em blocos de concreto, uns em cima dos outros, para mim nunca fez sentido na verdade… Sempre fiquei questionando porque eu preciso de uma pessoa na porta da minha “casa” 24 h por dia (nossos amados porteiros). Será que ele não preferiria estar com a própria família? Em sua própria casa?
Sei que para alguns pode parecer viagem da minha mente. Mas eu sempre pensei assim, desde criança. Passei a vida quase toda correndo por um quintal, numa casa onde apenas uma cerca de arame separava da rua. Agora, ter que viver num bloco, sem gramado, e com pessoas garantindo que eu possa entrar ou sair, continua sendo estranho pra mim.
Enfim, eu não segui meus próprios conselhos de 2017. Precisei passar a quarentena dentro de um bloco de concreto, para ouvir minha própria voz interior.
Me viro como posso. Faço Yoga, ouço sons da natureza, pratico meditação, leio, dou risada na Internet, assisto filmes, aprendo em cursos online… Mas o chamado é para voltar para a terra.
Sigo planejando mudanças, agradecendo pelo teto, estudando possibilidades, e voltando ao mundo da escrita. Uso a ansiedade como combustível. Enquanto não há quintal, vivo o momento presente tentando aprender tudo que posso absorver.
Você não precisa que ninguém te diga o que fazer. Você sabe. Talvez só esteja com medo, o que é absolutamente normal. Respire, silencie, sinta. Textos, vídeos e conversas podem te servir de sinais sim, mas a resposta que você tanto procura, já está aí.
Boa busca!
Ana Carolina Reis
06 de abril de 2020

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